Professora aposentada vence Concurso da Academia Criciumense de Letras
A educadora venceu na categoria crônica com um texto que conta a história de uma figura folclórica da cidade que catava papelão.
A professora aposentada de língua portuguesa, Marlene Bressan, moradora há alguns anos em Nova Veneza, é uma das vencedoras do XVI Concurso da Academia Criciumense de Letras, na categoria crônica, em Criciúma. Gaúcha de nascimento e neoveneziana de coração, a professora com 30 anos de carreira inscreveu o texto “O Catador de Papelão”, em 2015, no qual conta a história de uma figura que por muitos anos recolhia papelão em Nova Veneza.
“Sempre tive vontade de escrever, mas as tarefas do dia-a-dia, a família e a vida social nunca me deixavam, mas sempre li e corrigi muitos trabalhos. Vi que alguns neovenezianos participavam e ganhavam, como foi o caso da Margarete Ugioni e o Gabriel da Conceição. Já tinha essa crônica guardada há algum tempo, resolvi me inscrever e pela minha felicidade fui contemplada”, ressaltou a autora.

A ideia para a crônica surgiu enquanto observava um catador de papelão da cidade. “Me baseei em um catador de papelão que temos em Nova Veneza, é uma figura bem temática da cidade. Todos os dias vinha muito bem vestido com paletó, calça, sapato e um chapéu, era algo ao contrário do que as pessoas pensam de um catador de papel. Sempre ficava observando aquela pessoa que em sua simplicidade catava papel, carregava a carroça nas costas e usava isso para sustentar sua família. Me sensibilizei com ele”, destacou.
A crônica fará parte da revista anual da ACLe (Academia Criciumense de Letras) que será lançada no mês de setembro junto a Semana do Livro de Criciúma onde serão premiados os vencedores do concurso.
Além da crônica Marlene está trabalhando em um conto para se inscrever no próximo concurso.
Trajetória
Em sua trajetória, Marlene atuou na Escola de Educação Básica Delminda Silveira, em Mondaí e na Escola de Educação Básica Abílio César Borges, e é uma figura conhecida de Nova Veneza. Já atuou como conselheira tutelar, é a atual presidente da ANE (Associação Neoveneziana de Escritores). Participa também como colaboradora da ANET (Associação Neoveneziana de Turismo) e já esteve envolvida com outras entidades culturais do município. Hoje Marlene realiza aulas particulares, corrige TCCs, revisa livros e oferece aulas para concursos.
Leia o texto:
O Catador de Papelão
Marlene Bressan
Dentre os que passam em frente a minha janela, aquele que me chama mais atenção é ele: o catador de papelão. É um homem de meia-idade, pardo com olhos verdes que deixam transparecer a sua descendência. Suas roupas, compõem uma figura elegante, formando um conjunto harmônico de calças, casaco, sapatos e um belo chapéu. Ao contrário do que se imagina, devido a sua profissão, está sempre limpo, sem barba comprida e não cheira mal.
Mora em uma casa simples, com porão, local onde deposita sua colheita diária. Os donos das casas e prédios, por onde passa, o esperam diariamente para se livrarem de seus entulhos e também contribuírem para encher a carroça que ele mesmo puxa – sem tração animal. Carrega caixas de papelão, revistas, jornais, guias telefônicos, livros ultrapassados e outros vários objetos que irão para a reciclagem.
Sempre admirei sua paciência e disciplina em realizar suas tarefas; mas hoje, o vi cruzar a rua, para ir até um prédio, onde uma enorme caixa, recheada de papéis – fruto de uma elegante festa – o esperava imponente: nisso um carro chegou à altura do ponto em que se encontrava e o motorista atrapalhado freou a um palmo do seu corpo. Nisso o ouvi gritando: – Está pensando que você é o dono da rua?
Assim vai ele, rosto iluminado, deslumbrado com cada “monte” que o espera; em cada casa, em cada esquina, sem se dar conta que está contribuindo para tornar a cidade mais limpa e sem entulho. Observo que uma chuva fina e fria chega junto com a noite que se aproxima – por isso a necessidade do uso diário do chapéu – enfim; ela não avisa quando vai chegar.
Na esquina, há um bar e ele trôpego e cansado de puxar sua “locomotiva” faz uma parada obrigatória para tomar sua “pinguinha” e procurar rebater o frio que o acompanha; afinal, ninguém é de ferro… E amanhã, será outro dia puxado! Logo depois o vejo desaparecer na noite carregando consigo o fruto do seu trabalho, o qual lhe trará o seu sustento e o dos seus familiares.






