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A Revolução dos Bundões

Noutra noite, assistindo aos jornais da televisão, fui impactado pelas cenas de um menino, que teve que utilizar de uma artimanha, sabe lá com que inspiração, fingindo-se de morto, para em seguida salvar uma menina em meio a um tiroteio. Ambos pequenos, talvez com algo entre sete e nove anos, se muito.
 
Cena forte, contundente, revoltante.
 
Afinal de contas, que motivo seria suficientemente forte para justificar tão grotesca cena?
 
O sono demorou a vir depois disso. O pensamento voava, as emoções se confundiam entre tristeza e revolta. Fiquei tentando encontrar sentido naquela cena.
 
Impossível não vir a lembrança a facilidade com que falamos em revolução. Fácil né?
 
Falamos de algo que simplesmente não conhecemos. Não sentimos na pele os efeitos de uma revolução. Nossa geração não sofreu os efeitos de uma guerra ou conflito armado.
 
Mas, mesmo não entendendo lhufas do negócio, não falta quem brade que esta é a única saída. É no mínimo risível. Nossa geração sabe muito pouco, quase nada de dificuldades. Recebemos quase tudo pronto. Acabado.
 
Se não estamos na melhor situação de todas, estamos muito melhor que muitos outros povos e muito melhor que em nações que acabaram por resolver sues problemas com revoluções, com guerras e conflitos armados.
 
Nossos antepassados deixaram seus países de origem justamente fugindo das guerras e revoluções e de tudo de nefasto que elas produzem. Chegaram aqui e encontraram uma situação periclitante. Dificuldades de fato. Saiam de casa pela manhã para ir à roça, sem a certeza de que haveria para comer. Além das ferramentas para o trabalho, iam para a roça ou para o mato com suas espingardas, na tentativa de encontrar alguma caça e garantir a tão escassa carne para suas refeições.
 
O trabalho era diário do clarear ao escurecer. Tudo feito a mão, na força do braço e do espírito, porque muitas tarefas eram quase impossíveis. Mas eles faziam. Eram obrigados a fazer para sobreviver.
 
Aliás, muitos não sobreviviam. Difícil encontrar uma família que não tivesse várias mortes por doenças, muitas delas fruto da inanição e da precariedade de vida.
 
Tudo era muito difícil para ter apenas o básico do básico.   
 
Quem não ouviu os mais velhos contando sobre como eram as roupas e sapatos. Não tinham nem blusas quentes no inverno rigoroso. Nem sapatos. A palha cobria as casas, forrava os colchões, os travesseiros de “marcela” e as cobertas de penas de ganso. E olha que isso as vezes era um luxo para poucos.
 
Dificuldades? Não. Não as conhecemos de verdade!
 
Somos uma geração de bundões, que bradam pela ecologia, mas não abrimos mão de ir de carro até no banheiro, de usar o elevador todos os dias, de tomar nosso banho quentinho ou de usar nosso ar condicionado no carro e em casa. Falamos de direito iguais, mas queremos sempre que os nossos sejam mais iguais que os dos outros. Falamos em revolução, desde que seja à distância e que só nos venham os benefícios.
 
Uma revolução não é o Big Brother. As eliminações são de verdade bundão.
 
Quer uma revolução?
 
Comece tirando o rabo da cadeira. A revolucionar os seus métodos, atitudes e pensamentos.
   
Lute por algo mais que a sua camisa de marca, o carro mais moderno, ou o celular de última geração!
 
 
Ou você acha que seria divertido ver a sua revolução pela TV, com as crianças dos outros se esquivando dos tiros e depois formulando suas teses da importância da Revolução dos Bundões?    
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